sábado, 24 de outubro de 2026.

ARTIGO: Enquanto o Brasil discute seu futuro, quem está cuidando do futuro dos nossos jovens?

Problemas que tiraram adolescentes de Rondônia dos Jogos da Juventude levantam um alerta sobre a motivação esportiva, a responsabilidade do poder público e o risco de afastar novos talentos do esporte
Julia, Isadora, Katharina e Thaila (em sentido horário): sonho interrompido / Foto: Divulgação

Em uma semana em que as atenções do país se voltam para a disputa presidencial e para o debate sobre o futuro do Brasil, da população brasileira e das próximas gerações, acredito que também precisamos olhar para uma questão mais próxima, mas não menos importante: que futuro estamos ajudando a construir para nossas crianças e nossos adolescentes?

Enquanto discutimos os rumos do país em escala nacional, há jovens que enfrentam problemas bem concretos para realizar algo que exige dedicação, disciplina e persistência.

Em Rondônia, atletas que se prepararam para disputar os Jogos da Juventude CAIXA 2026 ficaram fora da competição em meio a problemas relacionados a inscrições e procedimentos administrativos.

Em outro caso, uma equipe de handebol de Cacoal teve de lidar com passagens aéreas emitidas para a data errada, situação que alterou o planejamento de viagem e provocou a mudança do horário de uma partida.

Acompanhei esses episódios de perto e publiquei as reportagens no Rondônia ao Vivo e no Extra de Rondônia. Depois de ouvir atletas, familiares e treinadores, conhecer a versão apresentada pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc-RO) e consultar estudos científicos sobre o abandono esportivo na adolescência, passei a refletir sobre uma questão que vai além das inscrições, dos prazos e das passagens: que efeito experiências como essas podem ter sobre jovens que estão construindo sua relação com o esporte e descobrindo se vale a pena continuar?

Não afirmo que esses adolescentes vão abandonar suas modalidades, nem que todos os problemas tenham a mesma origem. Mas considero necessário discutir o risco de desmotivação e a responsabilidade das instituições públicas na preservação das oportunidades esportivas. Afinal, quando um jovem se dedica durante meses a uma atividade e perde a chance de competir por uma situação que afirma não estar sob seu controle, o impacto pode ultrapassar o resultado de uma competição.

Quando a preparação termina antes da competição

Uma das situações que mais chamaram minha atenção foi a de Julia Freitas Vieira, de Vilhena. A atleta se preparou para disputar as provas de 100 e 200 metros e, segundo o relato publicado em minha reportagem, recebeu a notícia de que não participaria dos Jogos da Juventude pouco antes da viagem. A família relatou meses de treinamento, dedicação e expectativa.

Em Porto Velho, a nadadora Isadora Nobre, tricampeã estadual dos Jogos Escolares de Rondônia, também ficou fora da competição. Segundo a família e o treinador, houve um problema com a inscrição.

A atleta relatou que treinava cerca de 18 horas por semana. Em Cerejeiras, Thaila Nayara questionou os critérios e a comunicação relacionados à sua exclusão da delegação. Em Guajará-Mirim, Katharina Emília Bragado de Lima Pontes também relatou ter ficado fora da competição.

As circunstâncias não são idênticas, e cada caso precisa ser analisado a partir dos documentos, das regras e das responsabilidades envolvidas. Ainda assim, os relatos têm um ponto em comum: adolescentes que esperavam competir passaram a questionar por que não conseguiram participar de uma oportunidade para a qual afirmam ter se preparado.

O episódio de Cacoal acrescenta outra dimensão. A equipe feminina de handebol do Instituto Federal de Rondônia enfrentou problemas no deslocamento após a emissão de passagens para a data errada. A alteração do horário da estreia permitiu reorganizar a partida e evitar a ausência da equipe, mas não eliminou o desgaste nem a quebra do planejamento de descanso relatados pela direção do campus.

Em uma competição nacional, a preparação não se resume ao treinamento físico. Descanso, alimentação, concentração, deslocamento e organização também fazem parte das condições necessárias para competir. Quando alguma dessas etapas falha, os atletas podem ter de lidar com consequências que não estavam sob seu controle.

O que me chama a atenção é que, nos casos de exclusão, a oportunidade de demonstrar o resultado de meses de preparação foi perdida. No handebol, embora a equipe tenha conseguido seguir para a competição, houve uma alteração nas condições previstas para a viagem e para a estreia. São situações diferentes, mas ambas levantam questões sobre a importância do planejamento e da organização para quem representa o estado.

O que a ciência diz sobre a motivação dos adolescentes

A preocupação com a possibilidade de desmotivação não é apenas uma impressão pessoal. Há pesquisas que investigam os fatores associados ao abandono da prática esportiva nessa faixa etária.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2022 na revista Psychology of Sport and Exercise, intitulada Drop-out from team sport among adolescents, reuniu estudos prospectivos envolvendo 6.304 adolescentes praticantes de esportes coletivos. Os pesquisadores identificaram relações entre a desistência, a motivação e a experiência dos jovens na modalidade. A satisfação, o apoio social e as condições favoráveis à motivação aparecem entre os fatores importantes para a permanência no esporte.

O estudo não analisou falhas administrativas em competições escolares brasileiras e, portanto, não permite concluir que os acontecimentos em Rondônia levarão esses atletas a abandonar suas modalidades. Ele ajuda, porém, a compreender por que as experiências vividas pelos jovens e o ambiente em que praticam esporte merecem atenção.
O esporte exige persistência.

Um atleta precisa aprender a lidar com derrotas, superar dificuldades, respeitar regras e reconhecer que nem sempre alcançará o resultado desejado. Mas existe uma diferença entre perder uma disputa dentro das regras e deixar de ter a oportunidade de disputar porque houve um problema nos procedimentos que deveriam garantir sua participação.
Na primeira situação, o adolescente pode avaliar seu desempenho, identificar o que precisa melhorar e se preparar para a próxima competição. Na segunda, corre o risco de sentir que sua dedicação não foi suficiente para assegurar sequer a oportunidade de competir.

Uma disputa por atenção que já é grande

Esses episódios também acontecem em uma sociedade na qual o esporte disputa espaço na rotina dos adolescentes com redes sociais, celulares, vídeos e videogames. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, acompanha os hábitos de atividade física e outros aspectos da saúde dos estudantes brasileiros, e seus resultados mostram que manter os jovens fisicamente ativos continua sendo um desafio.

Isso não significa que a tecnologia seja, por si só, responsável pelo afastamento do esporte, mas reforça a importância de oferecer oportunidades atrativas, acessíveis e positivas para que crianças e adolescentes se mantenham envolvidos em atividades físicas. Se queremos estimular essa participação, precisamos evitar que falhas administrativas ou problemas de organização se transformem em mais um motivo para o jovem questionar se vale a pena continuar.

A versão da Seduc e as perguntas que permanecem

Ao longo da apuração, também procurei registrar a posição da Secretaria de Estado da Educação. Em reportagem publicada no Rondônia ao Vivo em 22 de outubro, apresentei os esclarecimentos da Seduc sobre os casos.

A Secretaria afirmou que, no atletismo, o impedimento de uma atleta estava relacionado a critérios técnicos e regras estabelecidos pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB). A pasta também explicou que uma lista preliminar de inscrições é encaminhada aos técnicos responsáveis para conferência e ressaltou a necessidade de participação dos responsáveis legais na verificação dos dados.

As explicações, entretanto, foram contestadas por atletas, familiares e treinadores ouvidos nas reportagens. No caso de Julia, foram levantadas dúvidas sobre a inscrição na prova correta. Em Porto Velho, o treinador de Isadora questionou os procedimentos de conferência dos dados. Outros relatos também trouxeram questionamentos sobre os critérios de seleção e a comunicação das decisões.

É necessário considerar a versão da Secretaria e verificar as regras do COB. Da mesma forma, é preciso confrontar os esclarecimentos oficiais com os documentos, as convocações e os relatos dos envolvidos. Quando existem versões divergentes, a publicação de uma nota não encerra a discussão: é necessário esclarecer o que aconteceu e identificar em que etapa os problemas poderiam ter sido evitados.

As perguntas são objetivas. Quais eram as responsabilidades de cada setor? Quem deveria conferir as inscrições? Em que momento eventuais erros poderiam ter sido identificados e corrigidos? No caso do handebol de Cacoal, como ocorreu a compra das passagens e quais procedimentos podem evitar que outras delegações enfrentem situação semelhante?
Essas perguntas não representam uma conclusão antecipada sobre a responsabilidade individual de servidores ou gestores. São questões que precisam ser respondidas para que os fatos sejam esclarecidos e, sobretudo, para que situações semelhantes não se repitam.

O que está em jogo vai além de uma medalha

Competições escolares podem representar muito mais do que a possibilidade de conquistar uma medalha. Para alguns adolescentes, são oportunidades de conhecer outros lugares, conviver com atletas de diferentes regiões, medir o próprio desenvolvimento e descobrir até onde podem chegar.

Nem todos seguirão carreira profissional no esporte, e esse não precisa ser o objetivo de todos. A prática esportiva também contribui para a saúde, a socialização, a disciplina e o desenvolvimento pessoal. Garantir condições adequadas para que os estudantes participem de competições é, portanto, parte de uma política de incentivo à formação dos jovens.

É por isso que considero necessário olhar para esses episódios com seriedade. Não basta saber se uma inscrição foi preenchida, se uma passagem foi comprada ou se uma partida foi remarcada. É preciso compreender como os procedimentos funcionaram, identificar responsabilidades e avaliar o que pode ser feito para evitar que o problema se repita.

Também precisamos ouvir os próprios adolescentes. Eles continuam motivados a treinar? Pensaram em desistir depois do que aconteceu? Sentem confiança para buscar uma nova convocação? Como seus treinadores e familiares estão lidando com a situação? As respostas podem ajudar a dimensionar os efeitos desses episódios, sem presumir consequências que ainda não foram comprovadas.

Minha impressão, a partir dos casos que acompanhei e das pesquisas que consultei, é que a preocupação não deve se restringir às oportunidades perdidas nesta edição dos Jogos da Juventude. O desafio é evitar que experiências negativas enfraqueçam a relação desses adolescentes com o esporte e abalem a confiança de outros estudantes que estão começando a trilhar o mesmo caminho.

Enquanto o debate presidencial coloca em pauta o país que queremos construir, esses casos me levam a pensar no futuro que estamos oferecendo à nossa juventude. Não se trata de comparar a dimensão de uma eleição com a de uma competição escolar, mas de reconhecer que o futuro de um país também é construído nas oportunidades que oferece às novas gerações.

O esporte ensina que nem sempre se vence. Mas, para aprender com uma derrota, é preciso ter a oportunidade de entrar em campo, cair na piscina, alinhar na pista ou disputar uma partida. Quando um adolescente se prepara para competir e não consegue sequer participar, precisamos perguntar se estamos fazendo tudo o que deveríamos para manter esses jovens no esporte.

A resposta exige mais do que discursos sobre a importância da juventude. Exige planejamento, responsabilidade, transparência e respeito à dedicação de quem treina e sonha em representar sua escola, seu município e seu estado. Porque discutir o futuro do Brasil também é discutir o que estamos fazendo, hoje, para que nossos jovens tenham motivos para acreditar no próprio futuro.

Mário Quevedo Neto, jornalista

 

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