sexta-feira, 05 de junho de 2026.

O homem que aprendeu a valorizar a vida convivendo diariamente com a morte: a história de Nino, da Funerária São Mateus

Ademilson de Gouveia Silva, o popular Nino / Foto: Divulgação

Por trás de cada velório, de cada despedida silenciosa e de cada família que recebe apoio em um dos momentos mais difíceis da vida, existe uma história de dedicação, sacrifício e superação.

Em Vilhena, poucas pessoas representam tão bem essa realidade quanto Ademilson de Gouveia Silva, o popular Nino, fundador da Funerária São Mateus e um dos profissionais mais experientes do setor funerário em Rondônia.

Há mais de 32 anos, ele convive diariamente com a dor das famílias, acompanha despedidas e ajuda pessoas a enfrentarem momentos que mudam vidas para sempre.

A trajetória de Nino no setor funerário não começou por escolha ou vocação. Foi a própria vida que o conduziu a esse caminho.

Nascido em uma época em que Rondônia ainda passava pelo processo de colonização e abertura de novas áreas, ele trabalhou durante anos em fazendas, derrubando mato e enfrentando condições extremamente difíceis. Foi nesse período que sofreu duas perdas que mudariam definitivamente sua história: a morte de dois irmãos em acidentes de trabalho.

“Trabalhávamos nós três juntos. Quando perdi o segundo irmão, percebi que não queria mais continuar naquela vida. Vim para a cidade e acabei entrando no serviço funerário justamente porque tive dificuldade para pagar o funeral dele”, relembra.

Sem recursos para custear o sepultamento, Nino começou a trabalhar na funerária que realizou o atendimento da família. O que inicialmente surgiu como uma necessidade acabou se transformando em profissão e, mais tarde, em missão de vida.

Da precariedade à modernização do setor – Quando ingressou na atividade, o cenário era completamente diferente do que existe hoje.

Segundo Nino, os serviços funerários eram extremamente simples. Não havia laboratórios especializados, equipamentos modernos ou técnicas avançadas de preparação de corpos.

“Era praticamente pegar o falecido, colocar no caixão e levar para o cemitério. Não existia a estrutura que temos hoje”, recorda.

As dificuldades eram tantas que ele chegou a morar dentro das instalações da funerária.

“Eu era recém-casado. Minha esposa tinha 17 anos e eu 25. Morávamos praticamente dentro do necrotério. Do quarto dava para ver a sala onde os corpos eram preparados.”

As técnicas utilizadas também eram rudimentares. A conservação dos corpos era feita com equipamentos improvisados e os procedimentos realizados de forma muito diferente dos padrões atuais.

Ao longo dos anos, porém, o setor passou por uma transformação profunda.

Hoje, Nino afirma que os serviços funerários contam com laboratórios modernos, técnicas especializadas de tanatopraxia e profissionais capacitados para oferecer um atendimento mais humanizado.

“Comparando com aquela época, é como sair de uma carroça e entrar em um avião.”

Presença em momentos marcantes da história de Rondônia –

Antes mesmo de consolidar sua trajetória no setor funerário, Nino também trabalhou como motorista de ambulância.

Naquela época, era comum que os mesmos veículos fossem utilizados tanto para transporte de pacientes quanto para serviços funerários.

Essa realidade o colocou diante de alguns dos episódios mais dramáticos da história recente de Rondônia.

Entre eles está o conflito de Corumbiara, em 1995, considerado um dos episódios mais violentos da questão agrária brasileira.

“Foi o maior desafio que enfrentei na vida. Eu estava lá trabalhando como motorista de ambulância e vi situações que jamais vou esquecer.”

Ele também acompanhou conflitos rurais em outras regiões do estado, além de inúmeros acidentes, homicídios e tragédias que marcaram sua trajetória profissional.

A parte mais difícil não é lidar com os mortos – Para quem vê de fora, pode parecer que a maior dificuldade da profissão seja lidar com corpos em decomposição ou cenas de acidentes graves.

Mas, segundo Nino, o verdadeiro peso do trabalho está em outro momento.

“O mais difícil é quando você precisa mostrar o rosto de uma pessoa falecida para a família fazer o reconhecimento. Aquela reação dos familiares é algo que nunca deixa de nos atingir.”

Ele admite que, mesmo depois de mais de três décadas na profissão, continua sofrendo com a dor das famílias.

Curiosamente, prefere ficar longe dos velórios.

“Eu consigo buscar o corpo, preparar, organizar tudo. Mas quando chega o momento do velório, muitas vezes prefiro me afastar. É quando percebo que já não posso fazer mais nada para aliviar aquela dor.”

Uma profissão sem horário – Outra característica marcante do setor funerário é a ausência de rotina.

Segundo Nino, a morte não escolhe dia, hora ou ocasião.

“O telefone toca de madrugada, em finais de semana, feriados, aniversários. Quem trabalha nessa área vive praticamente de plantão.”

Essa dedicação integral cobrou um preço alto ao longo da vida.

“Muita gente nunca me viu sentado em uma lanchonete tomando uma Coca-Cola. Em mais de 30 anos, posso contar nos dedos quantas vezes tive esse tipo de momento.”

Para aliviar a pressão emocional, ele busca refúgio na propriedade rural da família, cuidando de peixes e mantendo contato com a natureza.

A evolução dos velórios – Além da modernização técnica, Nino também acompanhou mudanças culturais importantes.

Uma delas é a redução do tempo dos velórios.

Segundo ele, a tradição de velórios que duravam 24 horas ou mais vem sendo substituída por cerimônias mais objetivas e adaptadas à realidade atual.

“A pandemia ajudou muito nessa mudança de mentalidade. Muitas famílias perceberam que não existe necessidade de manter um velório tão longo.”

Hoje, é cada vez mais comum que os sepultamentos aconteçam no mesmo dia ou poucas horas após a despedida.

O debate sobre os cemitérios em Vilhena – Com décadas de experiência acompanhando sepultamentos, Nino também observa com atenção a discussão sobre o futuro dos espaços funerários em Vilhena.

Ele avalia que os cemitérios-parque privados representam um avanço importante para a cidade e oferecem uma alternativa moderna às famílias.

No entanto, defende que o município continue investindo em soluções públicas para garantir acesso aos serviços funerários para toda a população.

“Os dois modelos são importantes. O cemitério-parque traz modernidade e estrutura diferenciada, mas o cemitério público continua sendo necessário para atender famílias que não têm condições de arcar com custos maiores.”

Tecnologia transforma o setor – A transformação digital também chegou ao universo funerário.

Hoje, segundo Nino, boa parte dos procedimentos pode ser organizada remotamente, agilizando processos e reduzindo burocracias.

Durante a pandemia, a tecnologia foi essencial para coordenar translados e atendimentos em diferentes estados brasileiros.

“Conseguimos resolver situações complexas envolvendo famílias espalhadas por várias regiões do país. Isso era impossível há alguns anos.”

O que a morte ensinou sobre a vida – Depois de mais de três décadas convivendo diariamente com despedidas, tragédias e histórias humanas das mais diversas, Nino diz ter aprendido uma lição simples, mas profunda: valorizar a vida.

“A vida é maravilhosa e precisa ser vivida intensamente. A morte faz parte da caminhada de todos nós.”

Cristão, ele acredita que o contato permanente com a finitude ajudou a desenvolver uma visão mais humana e sensível sobre as pessoas.

“Aprendi que devemos cuidar da família, tratar as pessoas com respeito e viver cada dia da melhor maneira possível. A morte é inevitável. O importante é viver bem enquanto estamos aqui.”

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