
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) que irá renunciar ao cargo, em meio ao escândalo envolvendo o banco digital Ueno Bank, que levou ao congelamento dos depósitos de cerca de 3 milhões de pessoas.
A crise política e financeira que atinge o país sul-americano começou na terça-feira (3), após o BCP (Banco Central do Paraguai) decidir intervir no Ueno por insuficiência de capital.
O BCP era presidido por Carlos Carvallo, que assumiu o cargo em setembro de 2023, cerca de dois meses depois de deixar a presidência do Ueno. Em meio ao escândalo, ele apresentou sua renúncia na terça.
Além de Carvallo, Peña também teve ligações com o Ueno antes da intervenção do BCP. Em abril do ano passado, o presidente admitiu que tinha investimentos na Ueno Holding, empresa ligada ao Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank.
Segundo o jornal paraguaio ABC, Peña afirmou que investiu na empresa em 2019, mas que, em março de 2025, o principal acionista “decidiu dissolver a empresa” em um processo de fusão no qual ele decidiu “não participar”.
“Ele me pagou pelas minhas ações e pela minha ligação com essa empresa, que não tem nada a ver com a Itti ou com o banco [Ueno], e eu deixei de ter qualquer ligação com a Ueno Holding”, disse.
O ABC afirmou que, antes de se desfazer das ações, Peña tinha 6,144 bilhões de guaranis (cerca de R$ 5,5 milhões na cotação atual) em participação acionária.
Segundo o jornal, a investigação contra o Ueno começou após o BCP identificar indícios de que a instituição concedia empréstimos acima do limite legal a empresas ligadas ao Grupo Vázquez.
O ABC também afirmou que, em pouco mais de dois anos, o banco passou de captações iniciais de depósitos públicos de 70 bilhões de guaranis (cerca de R$ 63 milhões) para um volume de 3,45 trilhões de guaranis (cerca de R$ 3,1 bilhões).
Em setembro, o Senado aprovou a solicitação de informações ao BCP relacionadas ao cumprimento, por parte do Ueno, das regras relativas a empresas coligadas e à concentração de recursos públicos.
De acordo com o ABC, o relatório foi apresentado aos parlamentares em outubro, mas a Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) o classificou como “incompleto”. Na época, a entidade destacou que o material tinha apenas a assinatura de Carvallo e não do Conselho de Administração do BCP, como costuma ocorrer em casos relevantes.
Na terça-feira, o BCP assumiu o controle do Ueno, após o conselho da entidade ter aprovado, na noite de segunda-feira (2), por unanimidade, um processo de resolução, que permite aos reguladores transferir os depósitos de um banco em dificuldades para outras instituições antes de liquidar seus ativos restantes.
Segundo o BCP, a medida foi adotada porque o índice de solvência do Ueno — que mede seu capital em relação aos seus ativos ponderados pelo risco — caiu abaixo da metade do mínimo legal.
O Ueno afirmava ter cerca de 3 milhões de clientes, o equivalente a aproximadamente 60% da população adulta do Paraguai, e administrava entre US$ 800 milhões (cerca de R$ 4 bilhões) e US$ 850 milhões (cerca de R$ 4,6 bilhões) em recursos públicos.
Isso inclui cerca de US$ 380 milhões investidos pelo Instituto de Previdência Social do Paraguai.
Os promotores determinaram a prisão de oito pessoas, incluindo o presidente do Ueno, Juan Manuel Gustale, e o diretor executivo, Federico Miguel Vázquez Villasanti, como parte de uma investigação sobre suspeita de abuso de confiança e outros crimes. Na tarde de terça-feira, outros dois diretores do banco foram presos.
Pedido de impeachment
Na quarta-feira, deputados da oposição apresentaram ao Congresso um pedido de abertura de processo de impeachment contra Peña e o vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana.
O texto da acusação apresentado à Câmara dos Deputados pede a abertura de um processo de impeachment contra Peña por “mau desempenho de suas funções no exercício do cargo”. O presidente é acusado, entre outras irregularidades, de “conflito de interesses” e enfrenta questionamentos pelo aumento de seu patrimônio.
Segundo a oposição, Peña tomou “decisões regulatórias supostamente favoráveis ao Ueno” e concentrou recursos previdenciários na instituição, em um possível conflito de interesses relacionado a seus antigos vínculos com o banco.
Nesta quinta-feira, a Câmara dos Deputados do Paraguai realizou uma sessão extraordinária para analisar a solicitação. No entanto, horas depois, Peña anunciou em um vídeo publicado nas redes que renunciaria ao cargo.
“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”, disse.
“Também quero pedir desculpas ao povo se, em algum momento, falhei. Nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim”, acrescentou.







