quinta-feira, 17 de setembro de 2026.

Jornalista da capital analisa: “quem é o perito de Vilhena que virou peça central da crise no STF”?

Ao apresentar sua defesa nesta terça-feira, 15, Alexandre de Moraes recorreu justamente ao episódio de João Nabas
Ministro Alexandre de Moraes e perito criminal da PF Joã Nabas / Foto: Revista Fórum

O jornalista de Porto Velho Alan Alex, editor-chefe da coluna “Painel Político”, traz uma reflexão das consequências do trabalho do perito criminal João Cláudio Nabas, chefe de núcleo da Polícia Federal (PF) em Vilhena, apontado como a fonte do vazamento de informações envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Segundo a Revista Fórum, Nabas atua em Vilhena, no sul de Rondônia, desde 2009 e exerce funções relacionadas ao setor técnico-científico da Polícia Federal no município (leia mais AQUI).

O perito passou a ser apontado como uma das peças centrais da crise que abalou o Supremo Tribunal Federal (STF), após uma delegada da Polícia Federal mencioná-lo, em depoimento cujo sigilo foi posteriormente levantado pelo próprio Supremo, como a origem do vazamento de dados sigilosos que teriam relacionado o ministro Alexandre de Moraes ao banqueiro Daniel Vorcaro.

De acordo com Alan Alex, ao apresentar sua defesa nesta terça-feira (15), durante o julgamento que analisa se será aberta uma investigação sobre o caso, Alexandre de Moraes recorreu justamente ao episódio envolvendo o perito João Cláudio Nabas.

Em sua manifestação, o ministro classificou as mensagens atribuídas a ele como uma “farsa montada” e uma “vingança dos aliados daqueles que tentaram acabar com a Democracia e foram condenados”, em referência ao grupo ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

>>> LEIA, ABAIXO, A ANÁLISE DO JORNALISTA SOBRE O PERÍTO:

 

O ESPECIALISTA QUE PEGOU O CASO CERTO

Nabas não é um técnico qualquer, e isso importa. Perito criminal federal há cerca de 20 anos, ele chefia o Núcleo Técnico-Científico (NUTEC) da PF em Vilhena desde 2009. É formado em Engenharia Civil e mestre em Economia, com concentração em Finanças, pela Universidade de Brasília. Dentro da corporação, tem reputação de especialista em crimes do mercado financeiro — dá cursos e palestras sobre o tema para a própria PF.

Há um detalhe que explica por que ele foi chamado para o caso Master. Sua dissertação de mestrado, concluída em 2023, analisou fraudes financeiras em fundos de investimento ligados a regimes de previdência (os RPPS), com foco em Fundos de Investimento em Participações — exatamente o tipo de estrutura que aparece nas investigações do Banco Master. Ou seja: dentro da PF, ele era um dos nomes que mais entendiam daquilo. Foi por isso que passou a integrar, remotamente a partir de Rondônia, a equipe que analisou os dados do celular apreendido de Vorcaro.

O QUE OS AUTOS DIZEM QUE ELE FEZ

É a partir dessa função que nasce a acusação. Segundo o depoimento da delegada Janaina Palazzo, que preside o inquérito da Operação Compliance Zero, Nabas compilou em dois arquivos PDF — sem cabeçalho nem identificação de origem — dados extraídos do celular de Vorcaro sobre os ministros Moraes e Dias Toffoli, e insistiu com colegas para que o material fosse repassado à imprensa, sugerindo a jornalista Malu Gaspar, do O Globo, com quem dizia ter contato “há anos”. A delegada afirma ter recusado. Dias depois, os dados saíram publicados.

Em fase posterior da investigação, a PF passou a sustentar que Nabas “de fato criou os documentos” e “direcionou seus esforços” para buscar elementos contra os ministros. Ele foi afastado da corporação e virou alvo de apuração por violação de sigilo funcional. Vale a ressalva de sempre: ele é investigado, não condenado, e ainda terá direito a apresentar sua defesa.

AS SIMPATIAS QUE O PERFIL REVELA

Aqui é preciso ter critério, e vamos tê-lo. Uma reportagem da Revista Fórum garimpou o perfil de Nabas na rede X (antigo Twitter) e encontrou um histórico de manifestações políticas, com a última publicação em 2023. Nele, o perito compartilhou publicações do senador Sérgio Moro (ex-juiz da Lava Jato) — incluindo, em agosto de 2021, um post em defesa da prisão após condenação em segunda instância — e do deputado Marcel Van Hattem (Novo), voz da direita. Segundo a apuração, chegou a apoiar a candidatura de Van Hattem à presidência da Câmara e reproduziu uma publicação do deputado que atacava ex-ministros do STF por “livrar Lula das condenações de Moro”.

Esse histórico traça um perfil de simpatia pública às bandeiras do lavajatismo e de crítica ao Supremo. É um fato, e é legítimo registrá-lo — ajuda a entender o personagem. Mas é preciso ser rigoroso sobre o que ele não prova.

A LINHA ENTRE O FATO E A ILAÇÃO

O histórico de opinião de um servidor não é, por si, prova de que ele agiu por motivação político-partidária. E há um dado que os dois lados da disputa precisam respeitar: até agora, a própria Polícia Federal não atribui motivação político-partidária à conduta investigada — trata o caso como violação de sigilo, não como ação política orquestrada.

Setores da imprensa foram além e especularam se haveria alguém “por trás” do perito — o editor da Revista Fórum, Renato Rovai, chegou a levantar a hipótese de uma conexão com o campo de Moro, mas ele próprio ressalvou não haver como “cravar”. Este texto não dá esse passo, porque os fatos não o sustentam. O que se pode afirmar é o que está documentado: o histórico de simpatias públicas de Nabas, e a conduta que os autos lhe atribuem. Ligar uma coisa à outra como causa e efeito é hipótese, não notícia.

Há, contudo, uma observação de método que se sustenta sem entrar em conspiração. O modo como os dados teriam sido tratados — extraídos de forma seletiva, compilados em documentos sem contexto e sem cadeia de custódia, e entregues prontos para a manchete — é precisamente a crítica que se consagrou contra os excessos da Operação Lava Jato. Foi essa, aliás, a censura que o ministro Gilmar Mendes fez em plenário, ao falar em “vazamentos seletivos” e “publicidade opressiva”. O caso Nabas, se confirmado o que descrevem os autos, é menos sobre um complô e mais sobre a sobrevivência de um método.

QUANDO O PERITO DE VILHENA VIROU ARGUMENTO NO STF

O alcance do caso ficou claro nesta terça-feira (15). Ao apresentar sua defesa no julgamento que decide se será investigado, Alexandre de Moraes recorreu justamente ao episódio do perito. O ministro classificou as mensagens atribuídas a ele como uma “farsa montada” e uma “vingança dos aliados daqueles que tentaram acabar com a Democracia e foram condenados”, em alusão ao grupo ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Moraes sustentou ainda que o relator do caso, André Mendonça, tinha “conhecimento formal” da citação de seu nome desde maio — quando autorizou a operação contra Nabas — e, mesmo assim, não levou o assunto ao plenário, preferindo, na acusação do ministro, “aguardar o momento político-eleitoral mais visível”. Em sua manifestação, Moraes afirmou dispor de testemunhas e admitiu a possibilidade de que delegados fossem ouvidos pelo plenário para corroborar sua versão. Assim, um perito lotado em Vilhena tornou-se, ao vivo, argumento na boca de um ministro do STF em sua própria defesa.

O QUE O CASO NABAS DEIXA EM ABERTO

O personagem de Rondônia condensa, num só nome, os fios da crise: a prova técnica real, o vazamento seletivo, a suspeita de instrumentalização política, o método que remete à Lava Jato. Cada um desses fios é fato ou tese em disputa — e nenhum, por ora, está encerrado. Nabas terá de responder na esfera penal e administrativa, mas seu destino também dependerá de como o país resolver a queda de braço maior em que ele virou peça.

Resta uma pergunta que o caso devolve, e que vale para além dele: se os dados que Nabas manuseou eram verdadeiros, o problema estaria no conteúdo ou no método? É a mesma pergunta que o STF, dividido, tentou responder nesta terça e não conseguiu. O perito de Vilhena, sem talvez imaginar, colocou o dedo exatamente na ferida que a Justiça brasileira ainda não fechou desde a Lava Jato: a de que a verdade obtida por atalhos pode cobrar, lá na frente, um preço alto — de quem a divulga e da própria causa que diz servir. (Leia a coluna na íntegra AQUI).

 

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